"Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira."
Demorei porque o livro é bem longo. São 800 páginas com uma letra miudinha e espaçamento pequeno, sem falar na intensidade da história e na complexidade dos personagens que demandam uma leitura lenta, saboreando cada palavra e refletindo. Como em todo livro russo, primeiro tive que me acostumar com todos os nomes, segundos nomes, sobrenomes e apelidos pelos quais os personagens são chamados, mas a partir daí a história me envolveu totalmente.
O romance conta a história de Anna, casada desde muito nova com Aleksiei Aleksándrovitch Kariênin. Eles têm um filho pequeno e moram em São Petersburgo. Quando Anna, em visita ao irmão em Moscou, conhece o Conde Aleksiei Vrónski na estação de trem, os dois se apaixonam imediatamente. A partir daí começa um história de amor proibida, intensa e muito sofrida entre os dois. Anna se entrega a esse amor, mas sofre muito por isso e a dor causa muitas mudanças na sua personalidade. Os sentimentos dos três personagens são muito bem explorados e descritos de forma poética e muito bonita.
(...) Desculpou-se e estava prestes a entrar no vagão, mas sentiu necessidade de observá-la outra vez - não por ser muito bonita, nem por ter uma graça elegante e discreta, que se percebia em toda a sua pessoa, mas porque, na expressão do rosto gracioso, ao passar por ele, havia algo especialmente meigo e delicado. Quando olhou para trás, ela também virou a cabeça. Os olhos brilhantes e cinzentos, que pareciam escuros devido aos cílios espessos, pousaram com simpatia no rosto de Vrónski, como se ela o tivesse reconhecido, mas, logo depois, voltou-se para a multidão que se aproximava, como que à procura de alguém. Nesse breve olhar, Vrónski teve tempo de perceber uma vivacidade contida, que ardia em seu rosto e esvoaçava entre os olhos brilhantes e o sorriso quase imperceptível, que arqueava os lábios rosados. Parecia que o excesso de alguma coisa inundava o seu ser e, a despeito da vontade dela, se expressava, ora no brilho do olhar, ora no sorriso. Intencionalmente, a mulher apagou a luz dos olhos, mas essa mesma luz cintilou, à sua revelia no sorriso quase imperceptível. p.73
Nunca nenhum livro me fez sentir tão íntima dos personagens como este. Mais que íntima, eu me senti na pele deles. Odiei e amei cada um deles. Tolstói tinha uma sensibilidade impressionante para entender as pessoas com suas peculiaridades de caráter e sentimento. Senti pena, raiva, estranheza, amor pelos personagens como acontece na vida.
A narração é em terceira pessoa, mas em cada capítulo através do ponto de vista de um personagem. A trama é tão rica que permite perceber como cada pequeno acontecimento influencia as ideias e sentimentos dos personagens, desde a roupa que alguém usa até as expressões do rosto ou as palavras. Os sentimentos e pensamentos dos personagens são descritos tão minuciosamente que eu consegui entendê-los mesmo quando senti raiva por suas escolhas.
Através dos pensamentos e falas dos personagens, fica claro o que pensam sobre o amor, o casamento, os valores morais da época, religião e também acompanhamos a situação da Rússia czarista. Os personagens conversam sobre política e economia e discutem a situação dos mujiques (camponeses) no campo.
A trama não gira somente em torno de Anna, mas tem vários núcleos. Tolstói se inspirou em pessoas do seu convívio para construir os personagens. O mais interessante deles, Liévin, é um alter ego seu. Através de Liévin sabemos o que Tolstói pensava - sua opinião sobre moralidade, política e economia. Nesta edição da Cosac Naify, lindíssima e traduzida diretamente do russo, há uma apresentação do tradutor Rubens Figueiredo através da qual tomei conhecimento de que o romance de Liévin e Kitty foi inspirado no casamento de Tolstói e de como as circunstâncias trágicas da sua vida, na época em que escreveu o livro, influenciaram sua escrita.
O livro é lindo, envolvente, triste e com os personagens mais bem construídos que já li. É uma leitura densa e reflexiva. Ao terminar de ler fiquei muito tempo com todos aqueles sentimentos de alegria, paixão e dor que vivi junto com eles dentro de mim. Pretendo reler muitas vezes! Não só recomendo, como acredito que seja obrigatório para quem quer conhecer um livro muitíssimo bem escrito! Os russos são muito bons mesmo! Intensos, sensíveis e escritores extraordinários!
Avaliação: ★★★★★★ Obra-prima! ❤
Existem mais de 10 adaptações para o cinema de Anna Karenina. Eu assiti a duas: uma adaptação fraquinha de 1997 com Sophie Marceau, Sean Bean e Alfred Molina e uma russa de 1967 que dizem ser a melhor, até agora. Baixei e pretendo assistir também adaptação de 1948 com a linda Vivien Leigh. No final deste ano estréia uma nova versão do diretor inglês Joe Wright com Keira Knightley, Jude Law e Aaron Taylor-Johnson. Estou muito ansiosa para assistir porque adoro os atores.
Até mais.
Beijo.