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domingo, 14 de julho de 2013

Lolita - Vladimir Nabokov


NABOKOV, Vladimir. Lolita. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 1992. 391p. Título Original: Lolita.

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado. Lo-li-ta: a ponta da língua toca em três pontos consecutivos do palato para encostar, ao três, nos dentes. Lo. Li. Ta. p.13.

Antes de mais nada, acho importante dizer que este não é um livro pra qualquer um. Não leia se você não sabe separar realidade de ficção, não leia fazendo pré julgamentos ou se não sabe apreciar uma boa construção de personagens, ainda que defeituosos e condenáveis!


Humbert Humbert, um homem de cinquenta e poucos anos, conta como se apaixonou e teve um caso de amor com uma menina de 12 anos, Lolita. Não há dúvida de que existe algo de errado com Humber Humbert. Ele é um homem obcecado por meninas bem novas. Fica claro como ele se sente atraído por tudo que Lolita tem de infantil e imaturo. Ele não a ama simplesmente, ele ama o seu corpo infantil e é obcecado por ela. Ela não foi a primeira menina por quem ele se encantou, mas a primeira com quem ele se envolveu de fato depois de adulto. Uma obsessão que se tornou uma paixão incontrolável.

Domingo. Volúvel, mal-humorada, alegre, desajeitada, graciosa com a graça mordente de sua corcoveante pré-adolescência, insuportavelmente desejável da cabeça aos pés (...) p.59.

Segundo Humbert, Lolita não é tão inocente assim. Ela é ardilosa, provocadora, precoce e segundo seu relato, não era mais virgem. É ela quem toma a iniciativa e o seduz. Mas é claro que isso não justifica a atitude de Humbert. Ela é uma criança e ele é o adulto, deveria se controlar. Além disso, como a história é narrada sob o ponto de vista dele, a forma como Lolita é descrita é influenciada pela sua personalidade. Ela era mesmo precoce e sedutora, ou essa era uma forma de Humbert justificar seu comportamento? Não é exatamente assim que a nossa cultura faz afirmando que meninas amadurecem mais rápido que meninos e assim as sensualiza desde cedo?

Que personagem é Humbert Humbert! Um dos personagens mais bem construídos que eu já li. Todas as nuances da sua personalidade, o cinismo, o sarcasmo são muito bem descritos. E ele é muito cínico! Ele sabe dos seus erros e tenta ludibriar o leitor e se justifica o tempo todo. Mas também é atormentado por sua obesessão, ele se repudia pelo seu ato.

Lolita é uma história doentia e sórdida, narrado pelo próprio Humbert.  É um romance psicológico com elementos de suspense e policial que desperta vários sentimentos - repulsa, pena, simpatia, raiva, desconforto...pelos mesmos personagens. Personagens falhos e adoecidos, mas ainda assim fascinantes. O que torna o livro tão bom, além da escrita belíssima, estimulante e instigante é essa capacidade de fazer pensar e mudar de ideia várias vezes. A genialidade está na forma como Humbert manipula o leitor tentando fazê-lo se confundir e entender seus sentimentos. Em alguns momentos é fácil se deixar levar pelos seus argumentos que tentam fazer esquecer de que Lolita é apenas uma criança de 12 anos.
Alguns momentos no meio da história foram cansativos. Achei o início mais empolgante, mas ainda considero um excelente livro!

Avaliação: ★★★★ 


Filmes: foram feitas duas adaptações para o cinema de Lolita. A primeira em 1962 dirigida pelo genial Stanley Kubrick e a segunda em 1997 dirigida por Adrian Lyne com Jeremy Irons. Gostei mais do clima do primeiro, mas nenhum dos dois conseguiu despertar em mim os sentimentos que o livro despertou.



Até a próxima.
Beijos.


P.S. Resenha editada em 07/04/2023

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Quando eu era criança - Meu livro preferido

Feliz dia das crianças para  todas as crianças e para os adultos que conservam a criança que existe dentro de si. \o/
Como hoje é dia das crianças, eu preparei um post muito especial com o meu livro preferido na infância.
O livro é "Fínist, o falcão da pena mágica". É um livro de contos tradicionais russos, traduzido em Portugal por Sampaio Marinho. É um livro lindo, de capa dura e cheio de ilustrações maravilhosas de I. Bilíbine.
Como eu já falei em outro post, eu morei em Moçambique, na verdade passei os primeiros 8 anos da minha vida lá. Moçambique tinha se tornado independente de Portugal há pouquíssimo tempo e era um país socialista, então eu tinha bastante acesso às culturas de Portugal e da antiga União Soviética.
Tenho vários livros de contos de fada e fábulas russos (minha paixão pela literatura russa vem desde cedo), mas estão com a minha mãe em Manaus. O único que trouxe comigo foi este que era meu preferido e que adoro até hoje.


Escaneei várias ilustrações para vocês verem como ele é lindo. Deu trabalho, viu? Mas valeu a pena. Queria muito mostrar este livro que amo tanto e que não se acha por aí. É só clicar para ver melhor as imagens. ;)

O livro tem 4 contos de fadas. O primeiro é o que dá nome ao livro, "Fínist o falcão da pena mágica" que se parece um pouco com "A Bela e a Fera" e de "A pequena Sereia".

Um senhor que tinha 3 lindas filhas, sai em uma viagem e pede que as filhas escolham presentes. As duas primeiras pedem roupas e joias, mas a terceira pede a pena de Fínist, o falcão deslumbrante. Ele volta com a pena que foi muito difícil de encontrar.


 

Toda noite a filha balança a pena mágica e esta se transforma em um príncipe. Eles se apaixonam e ficam noivos. As irmãs, invejosas, desconfiam e dão sumiço na pena. A moça então sai a procura do príncipe e pede ajuda para a Baba-Iagá, o espírito de uma bruxa do folclore russo que aparece em vários contos de fada. Ela é descrita como só tendo pele e osso. Depois de fazer muitos favores à bruxa, ela acaba encontrando o príncipe doente, mas ele fica bom, eles se casam e vivem felizes para sempre hehe.


 

As outras histórias também são lindas. "Maria Morevna, a rainha Magnífica", "Vassilissa, a bela" e "A Rã Princesa". 


   


Avaliação: ★★★★★ 

Espero que gostem.
Beijos.


P.S. Hoje é aniversário de dois anos do meu gatão gigante.
Parabéns, Merlin, meu lindão! =)
E parabéns para os irmãos gêmeos dele, que têm outros pais adotivos, Belinha, Mingau e Chamego (nome horroroso, coitado).

=^.^=

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Anna Kariênina - Liev Tolstói




"Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira." 


Demorei porque o livro é bem longo. São 800 páginas com uma letra miudinha e espaçamento pequeno, sem falar na intensidade da história e na complexidade dos personagens que demandam uma leitura lenta, saboreando cada palavra e refletindo. Como em todo livro russo, primeiro tive que me acostumar com todos os nomes, segundos nomes, sobrenomes e apelidos pelos quais os personagens são chamados, mas a partir daí a história me envolveu totalmente.

O romance conta a história de Anna, casada desde muito nova com Aleksiei Aleksándrovitch Kariênin. Eles têm um filho pequeno e moram em São Petersburgo. Quando Anna, em visita ao irmão em Moscou, conhece o Conde Aleksiei Vrónski na estação de trem, os dois se apaixonam imediatamente. A partir daí começa um história de amor  proibida, intensa e muito sofrida entre os dois. Anna se entrega a esse amor, mas sofre muito por isso e a dor causa muitas mudanças na sua personalidade. Os sentimentos dos três personagens são muito bem explorados e descritos de forma poética e muito bonita.

(...) Desculpou-se e estava prestes a entrar no vagão, mas sentiu necessidade de observá-la outra vez - não por ser muito bonita, nem por ter uma graça elegante e discreta, que se percebia em toda a sua pessoa, mas porque, na expressão do rosto gracioso, ao passar por ele, havia algo especialmente meigo e delicado. Quando olhou para trás, ela também virou a cabeça. Os olhos brilhantes e cinzentos, que pareciam escuros devido aos cílios espessos, pousaram com simpatia no rosto de Vrónski, como se ela o tivesse reconhecido, mas, logo depois, voltou-se para a multidão que se aproximava, como que à procura de alguém. Nesse breve olhar, Vrónski teve tempo de perceber uma vivacidade contida, que ardia em seu rosto e esvoaçava entre os olhos brilhantes e o sorriso quase imperceptível, que arqueava os lábios rosados. Parecia que o excesso de alguma coisa inundava o seu ser e, a despeito da vontade dela, se expressava, ora no brilho do olhar, ora no sorriso. Intencionalmente, a mulher apagou a luz dos olhos, mas essa mesma luz cintilou, à sua revelia no sorriso quase imperceptível. p.73

Nunca nenhum livro me fez sentir tão íntima dos personagens como este. Mais que íntima, eu me senti na pele deles. Odiei e amei cada um deles. Tolstói tinha uma sensibilidade impressionante para entender as pessoas com suas peculiaridades de caráter e sentimento. Senti pena, raiva, estranheza, amor pelos personagens como acontece na vida.

A narração é em terceira pessoa, mas em cada capítulo através do ponto de vista de um personagem. A trama é tão rica que permite perceber como cada pequeno acontecimento influencia as ideias e sentimentos dos personagens, desde a roupa que alguém usa até as expressões do rosto ou as palavras. Os sentimentos e pensamentos dos personagens são descritos tão minuciosamente que eu consegui entendê-los mesmo quando senti raiva por suas escolhas.

Através dos pensamentos e falas dos personagens, fica claro o que pensam sobre o amor, o casamento, os valores morais da época, religião e também acompanhamos a situação da Rússia czarista. Os personagens conversam sobre política e economia e discutem a situação dos mujiques (camponeses) no campo.

A trama não gira somente em torno de Anna, mas tem vários núcleos. Tolstói se inspirou em pessoas do seu convívio para construir os personagens. O mais interessante deles, Liévin, é um alter ego seu. Através de Liévin sabemos o que Tolstói pensava - sua opinião sobre moralidade, política e economia. Nesta edição da Cosac Naify, lindíssima e traduzida diretamente do russo, há uma apresentação do tradutor Rubens Figueiredo através da qual tomei conhecimento de que o romance de Liévin e Kitty foi inspirado no casamento de Tolstói e de como as circunstâncias trágicas da sua vida, na época em que escreveu o livro, influenciaram sua escrita.

O livro é lindo, envolvente, triste e com os personagens mais bem construídos que já li. É uma leitura densa e reflexiva. Ao terminar de ler fiquei muito tempo com todos aqueles sentimentos de alegria, paixão e dor que vivi junto com eles dentro de mim. Pretendo reler muitas vezes! Não só recomendo, como acredito que seja obrigatório para quem quer conhecer um livro muitíssimo bem escrito! Os russos são muito bons mesmo! Intensos, sensíveis e escritores extraordinários!

Avaliação: ★★★★★★ Obra-prima! 

Existem mais de 10 adaptações para o cinema de Anna Karenina. Eu assiti a duas: uma adaptação fraquinha de 1997 com Sophie Marceau, Sean Bean e Alfred Molina e uma russa de 1967 que dizem ser a melhor, até agora. Baixei e pretendo assistir também adaptação de 1948 com a linda Vivien Leigh. No final deste ano estréia uma nova versão do diretor inglês Joe Wright com Keira Knightley, Jude Law e Aaron Taylor-Johnson. Estou muito ansiosa para assistir porque adoro os atores.





Até mais.
Beijo.


Série de TV - Raised by Wolves

Terminei de assistir ontem à nova série original HBO Max. Já vou começar dizendo que recomendo para quem gostou de Battlestar Ga...