KIDD, Sue Monk. A Invenção das asas. São Paulo: Paralela, 2014. Título original: The Invention of Wings. 328p.
Eu estava prestes a cair o sono quando ela falou: "Eu devia ter costurado aquela seda verde dentro da colcha e ela nunca ia descobrir. Não me arrependo de ter roubado, só de terem me pegado".
"Por que você pegou?"
"Por que você pegou?"
"Porque", ela respondeu, "porque eu podia".
Aquelas palavras grudaram em mim. Mamã não queria o tecido, só queria causar confusão. Ela não podia ser livre e não podia dar na sinhá com uma bengala, mas podia pegar a seda dela. Você se rebela do jeito que pode. p.40
A Invenção das Asas é um romance histórico que se passa no século XIX no sul dos Estados Unidos e conta a história de três meninas - uma escrava e duas irmãs brancas que cresceram juntas. O livro mistura fatos reais e ficção já que as duas irmãs existiram mesmo e quando cresceram tornaram-se as primeiras mulheres abolicionistas e feministas americanas.
O livro mostra os horrores da escravidão e como Sarah, nascida em uma família aristocrata e dona de escravos, cresceu indignada com a escravidão e como se sentia impotente por não poder fazer nada pelos escravos. Principalmente por ser mulher. Sarah influenciou a irmã mais nova, Nina que também lutou pela abolição e para que as mulheres tivessem voz.
Mas a história é centrada em Sarah e na escrava Encrenca que ela ganhou no aniversário de 11 anos. Encrenca tinha 10. As duas cresceram juntas e mesmo vivendo na mesma casa, faziam parte de mundos totalmente diferentes. Sarah ressentia-se por não ter voz entre os homens e por não poder ter uma profissão. Seu sonho era ser advogada, mas seus planos foram frustrados muito cedo pelo pai e pelos irmãos que a ridicularizaram por sonhar tão alto. Encrenca cresceu ao lado de Sarah e por mais que a amiga tentasse protegê-la, ela não conseguiu escapar da violência e das humilhações por ser negra e escrava.
Sarah queria falar, queria que sua opinião fosse ouvida, mas para uma mulher no século XIX isso era impossível. As mulheres deveriam se casar e cuidar da casa e dos filhos e se não se casassem deveriam cuidar da mãe e das irmãs. Sarah teve que lutar e fazer escolhas difíceis para escrever seu próprio destino, assim como a irmã Nina. Encrenca, como escrava, não podia nem lutar.
A história é contada em primeira pessoa alternando os pontos de vista de Sarah e Encrenca. É um livro lindo, forte que fala de um assunto importante, doloroso e delicado de forma às vezes leve, noutras chocantes. A linguagem muda conforme os pontos de vista. Enquanto Encrenca fala da forma simples com que os escravos falavam, ainda que ela fosse uma escrava letrada, Sarah narra a sua história com uma linguagem mais formal. É interessante também perceber como elas enxergavam a vida e as situação com diferentes olhares.
"Bens e escravos. As palavras do caderno de couro apareceram na minha cabeça. A gente era como o espelho de moldura dourada e a sela do cavalo. Não pessoas de verdade. Não acreditava nisso, nunca acreditei um dia de minha vida, mas se você escuta os brancos por muito tempo, uma parte triste e derrotada de você começa a acreditar. Todo o orgulho por causa de nosso valor me deixou. Pela primeira vez, senti dor e vergonha por ser quem eu sou." (Encrenca) p.101
Avaliação: ★★★★★ ♥
Até a próxima.
Beijos e boas leituras. :**